Renascer das cinzas

 

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Passaram duas semanas desde o meu último texto. Foram dias difíceis, de medo, angústia, desespero, incredibilidade, impotência e tantos outros sentimentos menos bons. Não saber de como estavam os meus, não conseguir falar com eles, ver aquelas imagens horríveis na televisão.
Foi preciso parar, e o tempo que estava a dedicar a este novo projeto foi inicialmente para arrumar a minha cabeça, não conseguia escrever, não tinha ideias, os pensamentos eram sempre sobre o mesmo.
No final da semana com uma colega decidimos fazer algo que me ajudasse a canalizar esses pensamentos em algo positivo, não tinha estado naquele cenário mas precisava fazer algo por aquelas pessoas e dê-mos início à recolha de alguns bens para levar às famílias afetadas. O que inicialmente era algo pequeno, cresceu e deu origem a uma enorme onda de solidariedade e o que recolhemos deu para dividir o grupo e ainda guardar alguns bens que pela altura do Natal farão todo o sentido, particularmente para as crianças. Foi cansativo, desde os contatos, a recolha, a separação, a distribuição e alguns contratempos que foram surgindo pelo meio. Mas durante todo esse processo sentia-me bem por estar a fazer algo por estas pessoas que ficaram tão fragilizadas.
Além dos bens materiais queríamos levar uma palavra de conforto e solidariedade, sou filha da terra, sei o que é viver isolada das grandes cidades, sei o que é ser a serrana, há muito que também eu sinto o interior envelhecido e abandonado, pois tal como eu foram muitos os que não tiveram uma oportunidade para ficar.
Neste sábado chegou o dia de enfrentar a dura realidade, o caminho foi de ansiedade e medo por o que nos esperava.  Começar a ver tudo queimado, passar do verde para o preto é duro, ver casas destruídas, carros completamente queimados, perceber que todos ficaram cercados, que o fogo andou em todos os cantos é assustador. Volvidos quinze dias e ainda havia fumo em alguns pontos, ainda se sentia o cheiro a queimado e eu ainda não acreditava que aquilo fosse possível, como conseguiram escapar àquele inferno.
Estar com pessoas que perderam tudo, para quem a esperança foi profundamente abalada, que depois de uma vida dura de trabalho não restou nada, é difícil. No caminho fomos conhecendo algumas pessoas que marcaram, a Senhora da burra e seu filho que na apanha da azeitona a única coisa que agradeciam era uma ajudinha, só ficaram com a casa, mas para eles é o mais importante e agora a vida segue com muito trabalho. A Senhora do gato preto que perdeu tudo, mas a quem chegam os dois cobertores que já lhe tinham dado e a roupa do corpo, a quem deixámos alguns bens mas o mais importante foi termos aparecido para poder falar um bocadinho. O Senhor da força, a quem o fogo destruiu parte da casa mas que tem força reconstruir com a ajuda dos amigos e não quer ajudas, a revolta invade-lhe o discurso.
No domingo foi dia de visitar o meu lugar, ver a terra queimada em sítios que há anos não via mais do que vegetação. O verde deu lugar ao preto, inevitavelmente mudou a paisagem, tudo ficou mais despido, mas triste. Não foi fácil, vai custar sempre que voltar. Hoje escrevo com a paisagem do costume enquanto olho para o Tejo, penso assustada em como vão reflorestar tudo aquilo, quem o irá fazer, será isso possível, quais as medidas tomadas, como será o próximo verão, são tantas as dúvidas que me invadem e assustam. Mas tenho a esperança de que cada vez e voltar o verde esteja cada vez mais presente, e se puder fazer algo para ajudar, vou fazer. Que tudo seja diferente daqui para a frente, que todos tenham a força e ajuda necessária para renascer das cinzas.
Por aqui vamos tentar fazer a nossa parte.

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